Ponto Cego
Agosto 2026
Ninguém Mentiu
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Referências a EBITDA nos fazem estremecer. A administração acha que a fada do dente paga os investimentos em ativo fixo?
— Warren Buffett, carta anual da Berkshire Hathaway, 2000
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| 1 | Três balanços, nove dias |
Em 22 de julho, a Alphabet divulgou o maior lucro trimestral da sua história. Foram 112,2 bilhões de dólares, um crescimento de 298%. O lucro por ação saiu de 2,31 dólares para 9,11 dólares em doze meses. A ação caiu.
Em 29 de julho, a Microsoft divulgou receita de 90 bilhões de dólares no trimestre, o Azure acelerando para 43% de crescimento, a marca de 100 bilhões de dólares anuais na nuvem e uma carteira contratada de 678 bilhões. A ação subiu 8%.
No dia seguinte, 30 de julho, a Amazon divulgou receita de 200,6 bilhões, lucro operacional de 27,5 bilhões e a AWS crescendo 37%, o ritmo mais rápido em dezoito trimestres. Junto, elevou o investimento previsto para 2026 de 200 para 220 bilhões de dólares. A ação subiu 10%.
A leitura óbvia é que uma decepcionou e duas entregaram. Essa leitura está errada. As três entregaram na linha operacional. O que separou as reações estava nas notas contábeis, ditas em voz alta e lidas por muito pouca gente.
Na Alphabet, a linha de outras receitas, que não é operação, trouxe um ganho de 98 bilhões de dólares, quase todo de reavaliação não realizada de participações em SpaceX e Anthropic. O lucro por ação cheio de 9,11 dólares bateu com folga a expectativa. A Alphabet não publica um lucro ajustado que tire esses ganhos. O número que os analistas montaram por fora, retirando a reavaliação, ficou em torno de 2,85 dólares, abaixo do consenso. E o fluxo de caixa livre do trimestre ficou negativo em 5,9 bilhões, o primeiro trimestre negativo desde a abertura de capital, em 2004.
Na Microsoft, o investimento anunciado para o calendário de 2026 caiu de 190 bilhões para 175 bilhões de dólares. E nenhuma obra parou.
| 2 | Como 15 bilhões desapareceram |
Aconteceu assim. Amy Hood, diretora financeira da Microsoft, anunciou que a partir do início do exercício de 2027 a companhia estende a vida útil estimada dos seus data centers e prédios de escritório de 15 para 25 anos.
E explicou o efeito com uma precisão que merece ser lida devagar:
A mecânica é essa, em português. Capex é o gasto com ativo que dura anos, aquilo que a empresa constrói ou compra em vez de consumir no próprio exercício. Um contrato de 15 anos sobre um ativo que a empresa diz durar 15 anos é, na prática, uma compra financiada e entra na conta de investimento. O mesmo contrato sobre um ativo que a empresa diz durar 25 anos é aluguel e não entra. A régua que decide de que lado o contrato cai é a vida útil.
E é preciso dizer o outro lado, porque ele existe: 25 anos pode ser simplesmente o número certo. Um galpão de concreto e uma subestação duram mesmo mais do que quinze anos e a companhia afirma que a mudança reflete o seu histórico de operação. O que não dá para saber, de fora, é quanto da decisão é engenharia e quanto é o efeito dela no número que aparece na tela. As duas coisas cabem na mesma escolha e é isso que torna a nota difícil de julgar.
Nada mudou no mundo físico. Mudou o número de anos escrito numa planilha.
| 3 | O que os mesmos números também dizem |
E aqui preciso ser justo, porque a edição perde o sentido se eu não for. As três entregaram operação de verdade. O Azure fechou o exercício crescendo 41% e o último trimestre a 43%, com projeção de 45% para o seguinte. A AWS acelerou por cinco trimestres seguidos, de 17% para 20%, 24%, 28% e agora 37%, com a margem operacional do segmento subindo 6,5 pontos, para 39,4%. São mais de 30 milhões de assentos pagos de Copilot, com as adições líquidas mais que dobrando em um trimestre. Na edição de 14 de julho eu escrevi que a conta da I.A ainda não fechava e que atualizaria a tese se a evidência aparecesse. Parte dela apareceu. A demanda é real.
Mas há outros dois números no comunicado da Microsoft.
O primeiro: o investimento que passou pelo caixa no exercício encerrado em junho foi de 115,9 bilhões de dólares, contra 182,9 bilhões de geração de caixa operacional. O anunciado para o calendário de 2026, já incluindo arrendamentos, é de 175 bilhões. As duas janelas não são a mesma e os dois critérios também não, então a diferença não é subtração limpa. Mas a ordem de grandeza diz o essencial: parte relevante da obra não aparece na linha de investimento do fluxo de caixa.
O segundo: o lucro por ação cresceu 32% no critério contábil cheio. Excluindo os ganhos com o investimento na OpenAI, cresceu 23%. No ano fechado, 17,95 dólares contra 17,28, uma diferença de 4,963 bilhões. Quase um terço da taxa de crescimento do lucro por ação do exercício não veio de operação. Veio da reavaliação de uma participação numa empresa que é, ao mesmo tempo, um dos seus maiores clientes e parcialmente financiada por ela.
| 4 | O mesmo lançamento, três apresentações |
Nove dias, três balanços e em todos os três a mesma coisa aconteceu numa linha que não é operação: a reavaliação de uma fatia num laboratório de inteligência artificial.
Na Amazon, o próprio comunicado diz que o lucro do trimestre inclui 53,4 bilhões de dólares de receita não operacional antes de impostos, principalmente dos investimentos na Anthropic. A linha de outras receitas saiu de 1,1 bilhão, um ano atrás, para 53,4 bilhões. Na Alphabet foram os 98 bilhões de SpaceX e Anthropic. Na Microsoft, 4,963 bilhões da OpenAI no exercício.
O lançamento contábil é o mesmo nos três. A apresentação é diferente nos três.
A Microsoft tira o ganho da OpenAI do seu número ajustado e publica dois lucros por ação: 4,81 dólares no critério cheio e 4,74 sem o ganho. A Amazon não apresenta nenhuma medida que exclua o dela. A Alphabet também não. Por isso a manchete dela foi 9,11 dólares. O 2,85 existe porque analistas refizeram a conta por fora, não porque a companhia a tenha publicado.
Nenhuma das três está errada. Marcar uma participação a mercado quando existe rodada de investimento observável não é escolha da empresa, é obrigação contábil. O que é escolha é o que ela destaca no título.
E vale fazer a conta com cuidado, porque circulou por aí que 85% do lucro da Amazon foi papel. Esse número está inflado: ele compara um ganho antes de impostos com um lucro depois deles. Veio junto um imposto específico ligado a esse ganho, de 15,9 bilhões, que a companhia reporta no semestre e não isola no trimestre. Feita a conta com cuidado, o ganho responde por 66% do lucro antes de impostos e por algo perto de 60% do lucro líquido se atribuirmos aquele imposto inteiro a ele, que é a hipótese mais generosa com a companhia. Continua sendo a maior parte. O motor operacional, que é o que se repete no trimestre seguinte, gerou 27,5 bilhões.
Um ganho de marcação não paga salário, não levanta data center e não volta no trimestre que vem.
Há uma segunda coisa em comum nos três balanços e essa quase ninguém destacou. Duas das três já queimam caixa. A Alphabet teve o tal primeiro trimestre de caixa livre negativo desde 2004. A Amazon fechou os últimos doze meses com caixa livre negativo de 7,6 bilhões de dólares, contra positivo de 18,2 bilhões um ano antes e a sua dívida de longo prazo subiu 63,2 bilhões em seis meses. O lucro recorde e o caixa negativo estão no mesmo comunicado.
| 5 | A lacuna de 285 bilhões |
Agora afaste a câmera.
Pelas compilações de mercado, as quatro maiores compradoras de infraestrutura de I.A gastaram 433,9 bilhões de dólares em investimento nos quatro trimestres encerrados em março. Não é número que se tire de um balanço só, então vale como ordem de grandeza e não como precisão decimal. Na mesma janela, reconheceram cerca de 149 bilhões de depreciação. A proporção é de três para um.
São cerca de 285 bilhões de dólares por ano de dinheiro que já saiu do caixa e ainda não passou pelo resultado.
Isso não é custo ausente. É custo adiado. E o adiamento tem data: pelas vidas úteis que as próprias companhias declaram, esse custo chega ao resultado entre 2027 e 2029, tenha a receita de inteligência artificial crescido ou não até lá. É exatamente por isso que a vida útil deixou de ser uma nota de rodapé técnica e virou a variável mais consequente deste ciclo.
Essa briga já foi comprada antes. E durou setenta anos.
| 6 | A briga que já durou setenta anos |
Em junho de 1907, a Interstate Commerce Commission obrigou as ferrovias americanas a trocar a contabilidade de melhoramentos por depreciação. No método antigo, o trilho entrava no ativo e nunca era depreciado de forma sistemática. Só se lançava despesa quando havia troca. O resultado é que uma ferrovia podia reportar lucro por décadas enquanto a sua via se gastava debaixo dos trens.
O que começou como discussão cordial entre técnicos virou, entre 1907 e 1913, litígio contra a autoridade da própria agência, com ofensas públicas e desobediência civil. E repare no que estava em jogo, porque não era aritmética. Era quem tem o poder de decidir quanto tempo uma coisa dura.
A comissão venceu em parte. As ferrovias mantiveram o método antigo para a via permanente por cerca de setenta anos, até os anos 1980. Os trilhos se gastavam. Os livros não diziam.
A versão contemporânea dessa disputa não tem agência reguladora nem litígio. Entre 2020 e 2024, a Amazon esticou a vida útil dos seus servidores três vezes, de 3 para 4 anos, de 4 para 5, de 5 para 6. As outras grandes nuvens fizeram movimentos parecidos, em datas e degraus próprios. Cada esticada joga custo para frente e melhora o lucro reportado hoje.
Até que, em janeiro de 2025, a Amazon andou para trás. Encurtou parte dos seus servidores de 6 para 5 anos, citando o ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico, particularmente em inteligência artificial. Custo declarado da honestidade: 0,7 bilhão de dólares no lucro operacional do ano.
No mesmo trimestre, a Meta esticou na direção oposta. Duas empresas, na mesma janela, olhando para equipamento parecido, chegaram a conclusões contrárias sobre quanto tempo ele dura. Uma disse que a I.A está tornando o hardware obsoleto mais rápido. A outra disse que os seus ativos duram mais. As duas são legais. As duas são auditadas.
E note que é a mesma Amazon que, dezoito meses depois, reportou o lucro mais inflado por marcação dos três. Não é contradição e é justamente esse o ponto: cada linha do balanço tem a sua própria escolha e ser conservador numa não obriga a ser conservador na outra. Quem lê precisa olhar uma por uma.
A vida útil não é um fato. É uma opinião com casa decimal.
| 7 | O motor que ninguém elegeu |
Agora a parte que quase ninguém conecta e que é a razão pela qual isso importa para quem não tem um dólar na Nasdaq.
No primeiro trimestre de 2026, o investimento ligado a inteligência artificial respondeu por aproximadamente três quartos de todo o crescimento do PIB americano, em leituras feitas sobre a terceira estimativa do BEA. Aqui cabe uma ressalva que quase nunca vem junto do número: investimento ligado a inteligência artificial não é uma rubrica oficial. É um recorte de quem faz a conta e o recorte muda o tamanho da resposta. Pelas mesmas contas, esse investimento já equivale a algo em torno de 5% do PIB dos Estados Unidos, nível visto pela última vez no fim dos anos 1990. E em 29 de julho, o mesmo dia da divulgação da Microsoft, o Federal Reserve manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75%, com três votos dissidentes que queriam subir, enquanto a média de criação de vagas dos três meses até junho caía para 111 mil, de 188 mil.
Junte as duas frases. O consumidor americano está parado. O que sustenta o crescimento é a obra.
O motor marginal da maior economia do mundo virou o comitê de alocação de capital de cinco empresas.
Esse comitê não tem mandato, não tem calendário, não tem voto e não deve explicação a ninguém. Não responde a parlamento nem a banco central. E pode mudar de ideia em um único trimestre, como a própria Amazon mostrou entre 2022 e 2023, quando cortou o próprio investimento diante de pressão de margem. É a mesma Amazon que agora fala em 220 bilhões e avisa que, mesmo assim, não terá capacidade suficiente nem em 2026 nem em 2027.
Para quem investe do Brasil, a consequência prática é desconfortável e tem duas direções.
A primeira: não temos praticamente nenhuma exposição ao lado bom deste ciclo. Não construímos os data centers, não vendemos os chips, não hospedamos os modelos. Mas temos exposição integral ao preço dele, através dos juros longos americanos que esse gasto ajuda a manter altos, do dólar, do custo global de capital e da energia que a obra disputa.
A segunda é contraintuitiva e vale dizer em voz alta: se esse investimento desacelerar, os Estados Unidos perdem o motor que está sustentando o crescimento enquanto o consumo patina. E o Federal Reserve passa a ter espaço para cortar. Notícia ruim lá tende a virar alívio de custo de capital aqui. É desconfortável de escrever, mas é o mecanismo.
| 8 | A sua mesa |
Porque nada do que essas três empresas fizeram é exótico. São as alavancas mais ordinárias da contabilidade corporativa, usadas bem, em público, em teleconferências transmitidas para o mundo inteiro. Ninguém escondeu nada. Estava tudo lá, dito pelos próprios diretores financeiros, em voz alta, no minuto em que as ações subiam.
Toda empresa que investiu pesado em 2025 e 2026 fez a mesma escolha, mesmo sem perceber que estava fazendo: em quantos anos isso entra no resultado? Essa resposta mudou a sua margem no ano passado e segue mudando nos próximos três. Se o número foi escolhido pelo contador sem que ninguém na mesa perguntasse por quê, então ele não foi escolhido por ninguém.
O ponto cego desta edição não é uma fraude. É o contrário disso. É a facilidade com que decisões inteiramente legítimas, tomadas em público e assinadas por auditor, mudam a foto que todo mundo usa para decidir. Ninguém mentiu. E é justamente por isso que é difícil de ver.
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Recomendação
The End of Accounting and the Path Forward for Investors and Managers
Baruch Lev e Feng Gu (Wiley, 2016)
Lev é professor de contabilidade na NYU Stern e passou a carreira medindo uma coisa incômoda: o quanto os balanços ainda explicam do valor das empresas. A resposta dele é que explicam cada vez menos e que o problema piora justamente nas companhias em que o ativo principal não é um prédio. O livro não é um manual de fraude nem uma denúncia. É uma investigação sobre por que a demonstração de resultado, inventada para medir fábricas e ferrovias, perde poder quando aplicada a negócios cujo valor está em intangível. Ler isso em 2026, no meio do maior ciclo de investimento em ativo fixo da história recente, é uma experiência estranha e útil: os autores mostram que o problema nunca foi a má-fé, foi a régua. Mais útil para:
Empresários e conselheiros que leem demonstrações financeiras para decidir e que nunca perguntaram quem escolheu as premissas.
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Este material tem caráter informativo e analítico. Não constitui recomendação de investimento, oferta de compra ou venda de qualquer ativo, nem consultoria personalizada. As empresas citadas aparecem como objeto de análise de método contábil e de ciclo econômico, não como sugestão de posição. Números e datas conforme divulgações públicas das companhias e de órgãos oficiais, referentes ao segundo trimestre de 2026.
Se alguém na sua mesa decide olhando uma margem, mande esta edição para essa pessoa.
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Rafael A. Weber
Sócio da Hatteras Wealth & Risk Management
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Sentado na mesa de empresários que construíram grandes negócios, descobri que quase todos têm o mesmo problema: ninguém olha a foto inteira. O corretor vê seguros. O assessor vê investimentos. O advogado vê estrutura. Na Hatteras, analisamos a foto inteira. Porque proteger, aumentar e perpetuar patrimônio não são três decisões. É uma só.
O Ponto Cego nasceu dessa obsessão: integrar o que o mercado fragmentou. Risco, patrimônio, investimentos e inovação, na mesma conversa, toda semana.
