Ponto Cego
Edição 11
Os Donos da Mesa
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O risco, no sentido próprio da palavra, é uma incerteza que se pode medir. E ela é tão diferente de uma incerteza que não se pode medir que, no fim, nem chega a ser uma incerteza de verdade.
— Frank H. Knight, Risk, Uncertainty and Profit (1921)
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Existe um tipo de erro que não aparece no balanço.
Ele não é uma dívida que você esqueceu de pagar. Não é um número vermelho que o contador circula no fim do ano. É uma frase que você assinou sem ler até o fim, há tanto tempo que já nem lembra de ter assinado. E que fica ali, em silêncio, esperando o pior dia possível para cobrar.
Os homens mais ricos da Inglaterra descobriram isso da pior forma. Eles tinham o melhor assento do mercado de seguros do mundo. Achavam que estavam do lado da casa. Estavam do lado errado da mesa o tempo inteiro, e levaram trezentos anos para perceber.
| 1 | O Melhor Assento do Mercado |
Por séculos, ser um Name no Lloyd’s de Londres foi uma das posições mais cobiçadas que o dinheiro podia comprar.
Não era um investimento qualquer. Era um clube. Duques, generais aposentados, herdeiros de sobrenomes que enchiam livros de história. Você emprestava o seu patrimônio ao mercado segurador, ele subscrevia apólices em seu nome, e nos anos bons você embolsava o lucro sem nunca pisar num escritório. Dinheiro trabalhando enquanto você caçava na Escócia.
Havia um detalhe na letra do contrato. Um detalhe que todo mundo conhecia e quase ninguém pesava de verdade. A responsabilidade do Name era ilimitada. Não até o valor que ele tinha aportado. Ilimitada. Se as apólices dessem prejuízo, ele respondia com tudo. A casa de campo, a coleção de arte, o sobrenome. No jargão do mercado, você garantia “até a última abotoadura”.
Era o preço de entrada de um clube que pagava bem. Ninguém entra num clube imaginando o dia em que ele cobra tudo.
Durante gerações isso pareceu uma formalidade. O Lloyd’s quase sempre dava lucro, e a palavra ilimitada virou só uma linha elegante num contrato de cavalheiros.
Nos anos 1960, eram cerca de seis mil Names. Em 1978, quatorze mil. No fim dos anos 80, mais de 34 mil pessoas tinham assinado aquela mesma frase. Trinta e quatro mil patrimônios pessoais, garantindo riscos que a maioria deles jamais leu.
| 2 | O Fuse Longo |
O problema do seguro é que ele inverte o tempo.
Você recebe o prêmio hoje. A conta chega depois. Às vezes muito depois. E em alguns ramos, esse “depois” não é o ano que vem. É outra geração.
As apólices que quebraram os Names tinham sido escritas décadas antes. Muitas cobriam responsabilidade civil de empresas americanas que, nos anos 1940, 50 e 60, usaram amianto. Naquela época, amianto era material de construção comum. Isolava, era barato, estava em tudo. Estava nas paredes, nos navios, nas escolas.
Ninguém sabia, ou ninguém quis saber, que aquilo matava devagar. O amianto tem um fuse longo. A doença aparece vinte, trinta, quarenta anos depois da exposição. Quando os trabalhadores começaram a adoecer em massa e os tribunais americanos começaram a condenar as empresas a pagar somas que ninguém tinha imaginado, a conta subiu pela cadeia. Da empresa para a seguradora. Da seguradora para o ressegurador. Do ressegurador para o Lloyd’s. Do Lloyd’s para os Names.
Um Name que tinha lucrado tranquilo nos anos 70 recebeu, nos anos 90, a cobrança de um risco que ele havia subscrito antes de muita gente daquela mesa ter nascido. A apólice estava lá. A assinatura estava lá. A palavra ‘ilimitada’ estava lá. Tudo escrito, tudo válido, tudo esquecido.
Esse é o risco que não dorme. Ele não está no resultado deste trimestre. Está numa decisão antiga que continua aberta, e que ninguém releu porque, no papel, ela já tinha dado certo.
| 3 | A Espiral |
Houve um segundo mecanismo, e esse é quase elegante de tão perverso.
Em 6 de julho de 1988, a plataforma Piper Alpha explodiu no Mar do Norte. Foi o pior acidente da história da indústria de petróleo offshore. A perda inicial para o mercado segurador ficou na casa de um bilhão e quatrocentos milhões de dólares.
Aqui acontece a parte que importa. No mercado de Londres, os syndicates do Lloyd’s resseguravam uns aos outros. Eu te passo um pedaço do meu risco, você passa um pedaço do seu, e assim por diante. Na teoria, isso dilui. Espalha a perda por tantos ombros que nenhum ombro sozinho sente o peso.
Na prática, o risco da Piper Alpha entrou numa engrenagem que o mercado depois apelidou de espiral. A mesma perda foi ressegurada dezenas de vezes, passando de um syndicate para o outro e, em muitos casos, voltando para quem já a tinha. O dinheiro girava em círculo. Cada um achava que tinha repassado o problema adiante. Ninguém percebeu que o problema estava voltando pela porta dos fundos, maior a cada volta, inchado de comissões e de taxas a cada passagem.
Quando a poeira baixou, a perda não tinha sido diluída. Tinha sido concentrada. Os mesmos poucos nomes apareciam em todas as pontas da corrente.
Passar risco entre amigos não faz o problema sumir. Faz ele rodar a sala e sentar de novo no seu colo. Distribuir e fingir que distribuiu são coisas diferentes. A primeira protege. A segunda só adia, e cobra juros.
| 4 | A Conta |
Entre 1988 e 1992, o Lloyd’s acumulou prejuízos da ordem de oito bilhões de libras.
Não era uma estatística de jornal para aquelas pessoas. Era a vida virando do avesso. Cerca de mil e quinhentos dos trinta e quatro mil Names foram à falência. Gente que tinha entrado no clube para multiplicar uma fortuna saiu dele devendo somas que não conseguiria pagar em vida. Casas vendidas. Heranças de séculos liquidadas. Idosos que tinham aportado o patrimônio inteiro recebendo cobranças de milhões.
Alguns deles tiraram a própria vida. As estimativas variam de uma dúzia a mais de trinta.
Muitos juraram ter sido enganados. Surgiu uma acusação que ficou famosa: a de que, no início dos anos 80, sabendo da onda de amianto que vinha pela frente, o mercado teria recrutado Names novos de propósito, para diluir o passivo em mais ombros. “Recrutar para diluir.” Trazer gente nova para a mesa justamente quando a conta velha estava prestes a vencer.
A Justiça inglesa, num julgamento longo de 2000, não considerou provada a tese da fraude deliberada. Mas o juiz não foi gentil com o mercado. Descreveu os Names como vítimas inocentes de uma incompetência estarrecedora. E uma instância superior reconheceu que as garantias dadas a eles, de que existia um sistema de auditoria rigoroso por trás de tudo, eram falsas.
Traduzindo: não precisou haver um vilão de filme. Bastou um sistema inteiro confiando que alguém, em algum lugar, estava lendo a letra miúda. Ninguém estava.
| 5 | O Ponto Cego |
Você não é um aristocrata inglês dos anos 80. Mas a frase que arruinou aqueles homens está, em alguma versão, na sua vida hoje.
Ela costuma vir disfarçada. Vem no aval que você deu para o empréstimo da empresa, com o seu CPF e o seu patrimônio pessoal por trás. Ilimitado, esquecido numa gaveta desde que o negócio ia bem. Vem na cláusula de responsabilidade solidária de um contrato que você assinou rápido porque o fechamento estava atrasado. Vem no passivo trabalhista ou ambiental que ainda não apareceu, que tem fuse longo, e que está sendo gerado agora, em silêncio, numa decisão que parece dar certo. Vem na estrutura societária que mistura o risco do negócio com o patrimônio da família, porque um dia foi mais simples assim.
Os Names tinham o melhor assessor, o melhor banco, o melhor sobrenome. Estavam dentro do sistema, mais perto do mecanismo do que qualquer cliente comum. Isso não os salvou. Pelo contrário. A proximidade do sistema foi exatamente o que fez eles confiarem nele sem reler nada.
Proximidade não é proteção. Estar perto do dinheiro não é o mesmo que estar protegido dele.
A pergunta que importa não é se o seu negócio vai bem este ano. Quase todo negócio vai bem em algum ano. A pergunta é quem, na sua mesa, está medindo o comprimento dos fuses em vez de comemorar o resultado do trimestre. Quem está lendo a palavra ilimitada nos seus contratos antes que ela leia você. O corretor olha a apólice. O assessor olha a carteira. O advogado olha o contrato. Quem está olhando a frase que atravessa os três e que nenhum dos três lê por inteiro?
Tem uma ironia final nessa história, e ela diz tudo. Quem encerrou o caso dos Names, anos depois, comprando o passivo inteiro para que aqueles homens pudessem enfim dormir, foi a seguradora de Warren Buffett. O mesmo Buffett que dizia que só quando a maré baixa é que se descobre quem estava nadando pelado.
A maré sempre baixa. A única decisão que você controla é se vai descobrir como estava vestido antes ou depois dela.
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Recomendação
Ultimate Risk: The Inside Story of the Lloyd’s Catastrophe
Adam Raphael · Bantam Press, 1994
Adam Raphael não escreveu este livro como jornalista de fora. Ele era um Name. Estava na mesa, assinou a mesma frase, levou o mesmo prejuízo. É o registro de dentro de como um dos mercados mais sofisticados do mundo conseguiu não enxergar um risco que estava escrito, assinado e datado nos próprios contratos. Mais útil para:
Quem tem patrimônio e acha que, por estar perto de bons conselheiros, está coberto.
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Se esta edição fez você pensar em alguém que carrega mais risco do que leu, encaminhe. O ponto cego dos outros costuma ser mais fácil de enxergar que o nosso.
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Rafael A. Weber
Sócio da Hatteras Wealth & Risk Management
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Sentado na mesa de empresários que construíram grandes negócios, descobri que quase todos têm o mesmo problema: ninguém olha a foto inteira. O corretor vê seguros. O assessor vê investimentos. O advogado vê estrutura. Na Hatteras, analisamos a foto inteira. Porque proteger, aumentar e perpetuar patrimônio não são três decisões. É uma só.
O Ponto Cego nasceu dessa obsessão: integrar o que o mercado fragmentou. Risco, patrimônio, investimentos e inovação, na mesma conversa, toda semana.
